segunda-feira, 1 de julho de 2024

AS PERGUNTAS

 

Fui tomar banho no frio de 15 graus e me veio à memória meu pai, que fazia um escândalo toda vez que entrava no chuveiro no inverno. Ele gemia, dava gritos de “ai ai ai ai ai”, baforejava, debaixo de nosso chuveiro pequenino, do qual saía apenas um filete de água quente, pouco quente. Pensei “Como era escandaloso!”, e sorri, sabendo que muito daquilo era teatro para nos fazer rir também.

Pensamentos são pássaros em revoada, que vêm em bando, e logo um cantou: “Será que nunca mais verei meu pai?”. De tantas e tantas perguntas que o homem se faz ao longo de toda a história humana, essa é daquelas sem respostas. Não sei. Não sei por que sou filha do meu pai e por que ele precisou ir tão cedo. Não sei, não sei, não sei. E logo imagino como as pessoas não ficam loucas sem fé.

Uma pergunta também puxa a outra, ainda mais quando viver é uma eterna e enorme interrogação, de maneira que elas começaram a brotar nesta ordem:

“Por que Deus fez essa vida para mim?”

“Por que me deu um pai tão bom a amoroso, quando estava médico, mas que também poderia virar monstro?”

“Por que o tirou de mim tão cedo?”

“Por que me tirou meu irmão, deixando-o escorrer pelos dedos de encontro ao chão?”

“Por que me deu um filho que mal me olha, raramente toma a iniciativa de me abraçar, parece nem me ver e é capaz de me ferir?”

“Será que uma pessoa sem fé aguentaria a minha vida?”

Se o roteiro fosse o mesmo, idêntico, sem nada a somar ou subtrair a não ser a fé... quem seria eu?

Dizem que a gente aguenta porque não há outro jeito, precisa aguentar. Eu só aguento porque quero as respostas, e só Deus pode dá-las algum dia, mas nem quando eu sei.

Santa Teresa dizia que “Deus mais ama a quem mais prova”. Não me sinto amada, sinto-me destroçada. Mas tenho fé nas respostas. Às vezes penso em naufragar? Sim. Tenho ganas de sumir no mundo? Sim. Consumo-me por dentro de dor e angústia até quase explodir? Sim. Gostaria de atirar todos os copos e pratos da casa na parede áspera do quintal? Sim. Sinto formigamentos e me falta o ar, uma pequena amostra da morte? Sim. Ranjo os dentes até sangrar? Sim. Seguro-me para não berrar? Sim. Planejo um mundo paralelo, vida a mais, tento do pesadelo acordar? Sim.

Todavia quero as respostas.

 

Enquanto escrevo esse texto, Álvaro está quebrando a casa lá embaixo.

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