quinta-feira, 29 de junho de 2023

RECEITA

 RECEITA


Sal a gosto...

Estou espantada!

Não sou nada acostumada

às coisas do meu jeito

que a vida não me deixa escolhas soltas ao vento.

Essa liberdade de usar a pitada

ou toda a corelhada.


Cismo...

É isso mesmo?

Sal a esmo?

Não sei a medida:

no prato ou na vida

me sinto perdida


terça-feira, 20 de junho de 2023

A ESCADA

 

A escada

Chimena Gama

 

Sonhei. E no meu sonho, eu andava, andava, andava até chegar a uma porta bem no meio de uma parede muito branca, branquíssima. A rua estava deserta, a calçada lembrava aquelas do interior, de várias pedras lascadas e mal colocadas. Sem hesitar, abri a porta de aço acinzentado e entrei em uma pequena sala onde o chão também era cinza, embora mais claro e em cujo meio exatamente havia uma escada de caracol.

Uma escada de caracol não era algo de que eu gostasse. Já subiu em uma? Dá vertigem... parece sempre nos levar à queda. Era muito alta e o corrimão era de ferro preto, trabalhado, meio rococó. Como no início do sonho, não pestanejei e me agarrei ao corrimão para subir seus degraus estreitos um a um. Devagar, mas com passos firmes, e sem nenhuma dificuldade. E como era sonho, a subida nunca acabava... Minha cabeça dizia “Mas você tem medo de escada de caracol, você não gosta!” e meu ser estava lá, todo pleno, subindo cheio de obstinação, mas sem pressa, com algo entre a tontura e a alegria de estar chegando lá. Em pouco tempo, fui me moldando aos seus passos, e entrando em seus movimentos. Posso dizer mesmo que eu bailava em caracol ao subir aquela escada interminável.

De fato, ela não acabou. O sonho sim. Acordei ainda meio no alto, parecia um pouco volátil, como se eu mesma fosse o caracol, ensimesmando-me em torno de mim e do meu centro. Ia me retorcendo, era uma mola, um sorvete de máquina, qualquer outra coisa que roda em torno de si mesmo.

Percebi que sim, estava me tornando a própria escada e seu movimento.

Que delícia!

Logo comecei a pensar como seria passar o dia daquela maneira...Como eu faria? O que as pessoas pensariam ao me encontrarem escada de caracol? A cabeça era meio confusa, porque estava sentindo-se muito bem daquele jeito, mas, ao mesmo tempo, procurava a lógica por trás do mágico.

Não fui trabalhar, não falei com ninguém. Passei o dia daquela forma, serpenteando sem cessar.

À noite, dormi profundamente. Mal caí no sono pesado, sonhei. E no meu sonho, eu andava, andava, andava...



ESSE É UM CONTO OBVIAMENTE BORGEANO. TAMBÉM O FIZ INSPIRADO NO FANTÁSTICO DA LYGIA FAGUNDES TELLES, UMA DAS MINHAS ESCRITORAS FAVORITAS. COMO ELE, HÁ DEZENAS AÍ PELA INTERNET...

sexta-feira, 16 de junho de 2023

AS COISAS

 

As coisas

essas, de material durável

coisas pedra

coisas bloco

densas

duras

 

as coisas são como são

e ninguém em sã

consciência vai

dizer que não

 

senão buscar

que se dissolvam

que se destruam

que de desabem

 

e todos sabem

coisas não mudam

coisas afundam

 

pesadas âncoras

aço inoxidável

ferro intransponível

massa indesdobrável

 

são pesadas

as coisas.

Perdas e ganhos



Não gostaria de ofender nenhum autista com esse texto, mas trago minha experiência como mãe de um. Amo meu filho absurdamente e especialmente pelo seu autismo, deixei de viver minha vida, mas sei que cresço todos os dias por causa disso.


O autismo do meu filho roubou muito de mim.

 

Roubou bons momentos a dois com meu marido; roubou meu corpo magrinho; roubou minha autoestima, roubou meu intelecto, roubou minhas leituras; roubou os poemas que eu gostava de escrever, roubou minha casa cheia de amigos, roubou meu filho trazendo amigos para minha casa; roubou passeios e viagens; roubou meu sonho de dividir livros e filmes da minha infância e adolescência com meu filho, roubou minha formação espiritual, roubou meu sono, roubou minha saúde, roubou uma renda familiar maior.

O autismo só não me roubou minha fé. Deus ainda é minha rocha. Aliás, Ele é tudo.

 

Mas não só perdi...

O que ganhei com o autismo do meu filho

 

 Ganhei conhecimento sobre esse transtorno que afeta milhares de pessoas no Brasil; ganhei um olhar diferenciado para meus alunos com maior dificuldade; Ganhei muito mais paciência em vários aspectos da vida; ganhei a chance de estudar mais e fazer uma pós em educação inclusiva; ganhei a alegria de conhecer outras crianças com deficiência e suas famílias lindas; ganhei momentos engraçadíssimos com a rigidez e a mente concreta de meu filho; vivi momentos emocionantes com pessoas cheias de empatia pelo Alvi; vi milagres acontecerem quando parecia que nada mais aconteceria; vi progressos a passos de formiga, mas que geraram a alegria do tamanho de um elefante. Creio que espiritualmente, ganharei muito mais. Mas isso só Deus sabe... 

quarta-feira, 14 de junho de 2023

O TÍTULO DO BLOG


                  "Que riso perto, que aflição distante

            que ínfima débil, breve coisa nada

            iça, ao fundo, essa draga carburante

            rasga, revolve e asfalta a subterrânea estrada?"


      Os versos acima fazem parte do poema Suspensão Coloidal, do poeta lusitano António Gedeão. Conheci sua obra na época da minha faculdade e me apaixonei tanto que fiz meu mestrado sobre ele.

     Essa expressão, "breve coisa nada" sempre me impressionou por sua precisão de ligeireza, nulidade, generalidade, algo tão "coisinha", aparentemente tão insignificante... mas que a "draga carburante" consegue içar lá no fundo, deixando rasgos e refazendo a estrada.

    O título, assim como o blog, existe há mais de dez anos! Tive a ideia em uma conversa com Edu sobre nossos prazeres ao escrever e como sentíamos que tínhamos coisas a dizer... Mas, naquela época, também tínhamos um bebê novo e o projeto blog foi para o espaço - ou para algum lugar na minha conta do google que prontamente o ressuscitou assim que eu me sentei hoje e disse "vou colocar meus textos em um blog!" Tão logo abri o blogspot apareceu lá "breve coisa nada" e não tive dúvidas sobre manter o título.

     As breves coisas nadas são, em geral, as mais intensas, as mais importantes e significativas.

     Fica, então, explicado o título de um blog na era do tiktok, uma resistência entre vídeos e recursos bem mais avançados. Na sua simplicidade, "breve coisa nada" taí.

                    

AREIA

 

AREIA

 

Não parece que a ampulheta alargou o bocal, e a areia está passando mais depressa?

Não, é que estou envelhecendo.

Não que isso seja um problema. É uma constatação. Tampouco triste ou assustadora. Realista.

Não porque tenho 43 anos, quase 44. É que nos últimos três anos, envelheci dez. Sem relação com a idade, porque a maior parte da minha família nunca aparentou a idade que tem – sempre pareceu mais jovem – e isso eu poderia ter herdado. A não ser minha mãe. Depois dos 40, ela aparentava ter 40 mesmo, nunca mais jovem, e isso eu herdei dela, porque dela também herdei outra coisa, o sofrimento.

Não há como ter a pele firme, as linhas lisas, o olhar viçoso, o corpo em dia, o sorriso espontâneo quando se passa pelos últimos três anos. A pandemia com um autista. Um autista adolescendo. Tudo fora do eixo, tudo.

Não posso querer que seja de outro jeito, pois é como é. Há caminhos inescapáveis, becos infindáveis, e só de ter saúde (espero ter!), já preciso agradecer.

Não é todo dia, isso é verdade. Há dias bons... um, dois... e logo vem o desespero. A angústia de quem não consegue falar e se comunicar. Acumulando-se tudo, vivemos 68 anos já, nesses quase treze anos de Alvi.

Não que meu filho seja o problema. Ele é o amor maior, a força que me faz olhar para Deus e pedir mais força, a mola propulsora da minha garra, o espelho de Jesus aqui, ao meu lado. É nosso sofrimento que me açoita.

Não que seja só meu filho. Eu tenho uma história antes dele, e, antes dele também, eu já havia vivido mais 60 anos. Ao todo, eu tenho 128 anos, e é por isso que a ampulheta alargou o bocal, e a areia está passando mais depressa.

No olho do furacão




(Fonte da imagem: https://hypescience.com/o-que-e-o-%E2%80%9Colho%E2%80%9D-do-furacao-e-como-ele-se-forma/)


 

NO OLHO DO FURACÃO

 

No olho do furacão

caiu um cisco

no olho da menina.

É grave?

Não.

É sina.

 UM POEMA ADELIANO...


Herança


A vó se sentava

Encurvava-se sobre a mesa, os dois cotovelos nela

Segurava a cabeça com as duas mãos

A cabeça pensa

As mãos espalmadas na cara.

Ficava assim um tempo

Parecia cansada.

Eu só olhava, dizia nada.

 

Vó, hoje fui você.

 


As amizades ou um texto cheio de clichês e verdades.

 

Aulas do oitavo ano, quatro capítulos seguidos com textos sobre amizade. Em épocas de isolamento, medo de pandemia, saudade... imaginem o quanto essas aulas mexem com a gente! Com eles, por incrível que pareça, menos. Estão há um ano sem poder direito regar essa plantinha que é tão necessário ser cultivada. E talvez pela pouca idade, ainda não conseguiram um florido jacarandá ou uma forte mangueira. Já eu... que saudade das minhas amigas!

               É clichê tudo que se pode dizer: amizade é inexplicável. Amigo é como o irmão/irmã que não tivemos – ou é mais um, caso já tenhamos irmãos. Para sair da frase feita, vamos a Paulo Leminski: “Meus amigos/quando me dão a mão/deixam na minha/ a sua mão”. E, com licença pedida ao poeta marginal, eu diria que os amigos sempre dão as mãos. E é isso que faz toda a diferença.

               Algo interessante nessa pandemia é como nosso psicológico passa a funcionar de maneira insólita. Eu não vejo minhas quatro melhores e mais fiéis amigas quase nunca. Já passamos muitos anos sem nos vermos e até mais de ano sem nos falarmos, porém, se eu não posso vê-las por causa de uma doença maldita... como a saudade é grande! Mas acredito que isso ocorra exatamente porque estou fragilizada (estamos todos?) e é nessa hora que mais precisamos dos amigos. Precisamos conversar, nos ver, rir, beber juntos, trocar confidências, chorar, falar de tudo e todos e de nós mesmos. Só com os amigos. E quando se tem amigos de trinta anos (sim, estávamos na maternidade quando nos conhecemos! Hahaha!), a sua vida é dele; a dele, sua. Porque a gente sabe a vida dos amigos pelo avesso.

               Nessas aulas com os oitavos, eu me lembrei de quando duas amigas ouviam música e uma delas tagarelava sem parar sobre o crush. A outra dormiu, cansada de tanto ouvir aquelas coisas que só adolescentes sabem “ele é lindo! Acha que me olhou? Será que foi para mim o sorriso? Será que ele vai ao Marquinhos? Mas e se vier falar comigo?...” Aff... o tempo passa, mas as falas entre amigas são parecidíssimas, troque apenas o Marquinhos por uma balada atual. Houve também a história de quando eu viajei com uma delas – a minha amiguirmã – e, depois de uns quatro ou cinco dias grudadas, ela não me suportava mais! Nós nos estranhamos muito ao longo dessa viagem, porque somos muito diferentes! E somos tão amigas... que sobrevivemos a isso! E ainda há coisinhas mais triviais. Juntarmo-nos para pintar as unhas, uma de cada cor, para o carnaval. Andarmos até um lugar calmo e ermo só para nos sentarmos e ficarmos falando sobre a vida, os pais, o futuro... e a noite chegar e ainda estarmos lá. Criarmos apelidos “carinhosos” em que nos chamamos de irritante e chata, fazendo trocadilhos com os nomes, sem jamais nos ofendermos. Fazermos sessões de fotos icônicas de nosso grupinho. Ficarmos nas casas umas das outras e adotarmos e amarmos suas famílias. Fazermos pactos e apostas bem características da adolescência. Comemorarmos a faculdade umas das outras. Mandarmos cartas/e-mails/ torpedos/whats nos aniversários. Falarmos sobre casamento, lista de casamento, festas de casamento. Vibrarmos com as gravidezes. Chorarmos as perdas. Orgulharmo-nos dos nossos filhos e eles saberem que somos amigas.

               Minhas amigas estiveram comigo nas minhas duas maiores perdas – quando meu pai faleceu e, depois, quando se foi meu irmão – e às vezes eu me pego pensando se poderei estar com elas em um momento assim tão delicado, porque para mim a presença delas foi essencial. Elas se casaram, os maridos são queridos, tenho um monte de sobrinhos. Uma delas tem até uma filha atípica como eu... e podemos fazer trocas que não faço com nenhuma outra mãe de deficiente, porque essa me conhece praticamente desde sempre.

               Amo essas quatro mulheres, na minha cabeça, ainda meninas. Claro que fiz muito mais amigos maravilhosos; naquela época mesmo e faço ainda hoje. Pessoas especiais, fiéis, carinhosas. É uma delícia estar escrevendo aqui e pensando em como a amizade é boa. Mas hoje eu me dediquei às meninas do meu quinteto; irmãs que não tive; presentes de Deus. E não há clichê mais sincero.

A mulher das cavernas internéticas ataca

 

Então, vamos lá: "fiz" um blog. E pelo amor de Deus, mulher, quem começa um blog em junho de 2023? Pessoal todo no twitter e no tiktok e você escrevendo como na idade das cavernas da rede. Só falta colocar um uga-uga.


Gente, eu estou fazendo esse blog porque gosto de escrever! 

Nas palavras de Leminski:

"Escrevo porque preciso

Preciso porque estou tonto

Ninguém tem nada com isso"


É verdade que todos que escrevem querem ser lidos, sem dúvidas. Claro que também quero, mas não é só isso: quero mesmo é soltar as palavras entaladas aqui dentro e colocar tudo que necessito contar. Desde que comecei a escrever sobre o autismo do Álvaro, meu filho, todo mundo me diz "escreve um livro!", "faz um canal de youtube!" O livro está pronto, o canal não vai rolar (não gosto de fazer vídeos), mas um blog... por que não? Ou, Leminski ainda: "tem que ter por quê?"

Aqui vai aparecer de tudo: minha vida, minhas histórias com o autismo, comentários sobre livros, filmes, séries, fofocas das celebridades, histórias engraçadas de sala de aula... Quero é escrever! 

Quem quiser ler, à  vontade. 

Estejam em casa.

Querem um café?

AS PERGUNTAS

  Fui tomar banho no frio de 15 graus e me veio à memória meu pai, que fazia um escândalo toda vez que entrava no chuveiro no inverno. Ele g...