As amizades ou um
texto cheio de clichês e verdades.
Aulas do
oitavo ano, quatro capítulos seguidos com textos sobre amizade. Em épocas de
isolamento, medo de pandemia, saudade... imaginem o quanto essas aulas mexem
com a gente! Com eles, por incrível que pareça, menos. Estão há um ano sem
poder direito regar essa plantinha que é tão necessário ser cultivada. E talvez
pela pouca idade, ainda não conseguiram um florido jacarandá ou uma forte
mangueira. Já eu... que saudade das minhas amigas!
É
clichê tudo que se pode dizer: amizade é inexplicável. Amigo é como o
irmão/irmã que não tivemos – ou é mais um, caso já tenhamos irmãos. Para sair da
frase feita, vamos a Paulo Leminski: “Meus amigos/quando me dão a mão/deixam na
minha/ a sua mão”. E, com licença pedida ao poeta marginal, eu diria que os
amigos sempre dão as mãos. E é isso que faz toda a diferença.
Algo
interessante nessa pandemia é como nosso psicológico passa a funcionar de
maneira insólita. Eu não vejo minhas quatro melhores e mais fiéis amigas quase
nunca. Já passamos muitos anos sem nos vermos e até mais de ano sem nos
falarmos, porém, se eu não posso vê-las por causa de uma doença maldita... como
a saudade é grande! Mas acredito que isso ocorra exatamente porque estou
fragilizada (estamos todos?) e é nessa hora que mais precisamos dos amigos.
Precisamos conversar, nos ver, rir, beber juntos, trocar confidências, chorar,
falar de tudo e todos e de nós mesmos. Só com os amigos. E quando se tem amigos
de trinta anos (sim, estávamos na maternidade quando nos conhecemos! Hahaha!),
a sua vida é dele; a dele, sua. Porque a gente sabe a vida dos amigos pelo
avesso.
Nessas
aulas com os oitavos, eu me lembrei de quando duas amigas ouviam música e uma
delas tagarelava sem parar sobre o crush. A outra dormiu, cansada de tanto
ouvir aquelas coisas que só adolescentes sabem “ele é lindo! Acha que me olhou?
Será que foi para mim o sorriso? Será que ele vai ao Marquinhos? Mas e se vier
falar comigo?...” Aff... o tempo passa, mas as falas entre amigas são
parecidíssimas, troque apenas o Marquinhos por uma balada atual. Houve também a
história de quando eu viajei com uma delas – a minha amiguirmã – e, depois de
uns quatro ou cinco dias grudadas, ela não me suportava mais! Nós nos estranhamos
muito ao longo dessa viagem, porque somos muito diferentes! E somos tão
amigas... que sobrevivemos a isso! E ainda há coisinhas mais triviais.
Juntarmo-nos para pintar as unhas, uma de cada cor, para o carnaval. Andarmos
até um lugar calmo e ermo só para nos sentarmos e ficarmos falando sobre a
vida, os pais, o futuro... e a noite chegar e ainda estarmos lá. Criarmos
apelidos “carinhosos” em que nos chamamos de irritante e chata, fazendo
trocadilhos com os nomes, sem jamais nos ofendermos. Fazermos sessões de fotos
icônicas de nosso grupinho. Ficarmos nas casas umas das outras e adotarmos e
amarmos suas famílias. Fazermos pactos e apostas bem características da
adolescência. Comemorarmos a faculdade umas das outras. Mandarmos
cartas/e-mails/ torpedos/whats nos aniversários. Falarmos sobre casamento,
lista de casamento, festas de casamento. Vibrarmos com as gravidezes. Chorarmos
as perdas. Orgulharmo-nos dos nossos filhos e eles saberem que somos amigas.
Minhas
amigas estiveram comigo nas minhas duas maiores perdas – quando meu pai faleceu
e, depois, quando se foi meu irmão – e às vezes eu me pego pensando se poderei
estar com elas em um momento assim tão delicado, porque para mim a presença
delas foi essencial. Elas se casaram, os maridos são queridos, tenho um monte
de sobrinhos. Uma delas tem até uma filha atípica como eu... e podemos fazer
trocas que não faço com nenhuma outra mãe de deficiente, porque essa me conhece
praticamente desde sempre.
Amo
essas quatro mulheres, na minha cabeça, ainda meninas. Claro que fiz muito mais
amigos maravilhosos; naquela época mesmo e faço ainda hoje. Pessoas especiais,
fiéis, carinhosas. É uma delícia estar escrevendo aqui e pensando em como a
amizade é boa. Mas hoje eu me dediquei às meninas do meu quinteto; irmãs que
não tive; presentes de Deus. E não há clichê mais sincero.