terça-feira, 20 de junho de 2023

A ESCADA

 

A escada

Chimena Gama

 

Sonhei. E no meu sonho, eu andava, andava, andava até chegar a uma porta bem no meio de uma parede muito branca, branquíssima. A rua estava deserta, a calçada lembrava aquelas do interior, de várias pedras lascadas e mal colocadas. Sem hesitar, abri a porta de aço acinzentado e entrei em uma pequena sala onde o chão também era cinza, embora mais claro e em cujo meio exatamente havia uma escada de caracol.

Uma escada de caracol não era algo de que eu gostasse. Já subiu em uma? Dá vertigem... parece sempre nos levar à queda. Era muito alta e o corrimão era de ferro preto, trabalhado, meio rococó. Como no início do sonho, não pestanejei e me agarrei ao corrimão para subir seus degraus estreitos um a um. Devagar, mas com passos firmes, e sem nenhuma dificuldade. E como era sonho, a subida nunca acabava... Minha cabeça dizia “Mas você tem medo de escada de caracol, você não gosta!” e meu ser estava lá, todo pleno, subindo cheio de obstinação, mas sem pressa, com algo entre a tontura e a alegria de estar chegando lá. Em pouco tempo, fui me moldando aos seus passos, e entrando em seus movimentos. Posso dizer mesmo que eu bailava em caracol ao subir aquela escada interminável.

De fato, ela não acabou. O sonho sim. Acordei ainda meio no alto, parecia um pouco volátil, como se eu mesma fosse o caracol, ensimesmando-me em torno de mim e do meu centro. Ia me retorcendo, era uma mola, um sorvete de máquina, qualquer outra coisa que roda em torno de si mesmo.

Percebi que sim, estava me tornando a própria escada e seu movimento.

Que delícia!

Logo comecei a pensar como seria passar o dia daquela maneira...Como eu faria? O que as pessoas pensariam ao me encontrarem escada de caracol? A cabeça era meio confusa, porque estava sentindo-se muito bem daquele jeito, mas, ao mesmo tempo, procurava a lógica por trás do mágico.

Não fui trabalhar, não falei com ninguém. Passei o dia daquela forma, serpenteando sem cessar.

À noite, dormi profundamente. Mal caí no sono pesado, sonhei. E no meu sonho, eu andava, andava, andava...



ESSE É UM CONTO OBVIAMENTE BORGEANO. TAMBÉM O FIZ INSPIRADO NO FANTÁSTICO DA LYGIA FAGUNDES TELLES, UMA DAS MINHAS ESCRITORAS FAVORITAS. COMO ELE, HÁ DEZENAS AÍ PELA INTERNET...

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