A escada
Chimena Gama
Sonhei. E no meu sonho, eu andava, andava, andava até
chegar a uma porta bem no meio de uma parede muito branca, branquíssima. A rua
estava deserta, a calçada lembrava aquelas do interior, de várias pedras lascadas
e mal colocadas. Sem hesitar, abri a porta de aço acinzentado e entrei em uma
pequena sala onde o chão também era cinza, embora mais claro e em cujo meio
exatamente havia uma escada de caracol.
Uma escada de caracol não era algo de que eu gostasse.
Já subiu em uma? Dá vertigem... parece sempre nos levar à queda. Era muito alta
e o corrimão era de ferro preto, trabalhado, meio rococó. Como no início do
sonho, não pestanejei e me agarrei ao corrimão para subir seus degraus
estreitos um a um. Devagar, mas com passos firmes, e sem nenhuma dificuldade. E
como era sonho, a subida nunca acabava... Minha cabeça dizia “Mas você tem medo
de escada de caracol, você não gosta!” e meu ser estava lá, todo pleno, subindo
cheio de obstinação, mas sem pressa, com algo entre a tontura e a alegria de
estar chegando lá. Em pouco tempo, fui me moldando aos seus passos, e entrando
em seus movimentos. Posso dizer mesmo que eu bailava em caracol ao subir aquela
escada interminável.
De fato, ela não acabou. O sonho sim. Acordei ainda
meio no alto, parecia um pouco volátil, como se eu mesma fosse o caracol,
ensimesmando-me em torno de mim e do meu centro. Ia me retorcendo, era uma
mola, um sorvete de máquina, qualquer outra coisa que roda em torno de si
mesmo.
Percebi que sim, estava me tornando a própria escada e
seu movimento.
Que delícia!
Logo comecei a pensar como seria passar o dia daquela
maneira...Como eu faria? O que as pessoas pensariam ao me encontrarem escada de
caracol? A cabeça era meio confusa, porque estava sentindo-se muito bem daquele
jeito, mas, ao mesmo tempo, procurava a lógica por trás do mágico.
Não fui trabalhar, não falei com ninguém. Passei o dia
daquela forma, serpenteando sem cessar.
À noite, dormi profundamente. Mal caí no sono pesado,
sonhei. E no meu sonho, eu andava, andava, andava...
ESSE É UM CONTO OBVIAMENTE BORGEANO. TAMBÉM O FIZ INSPIRADO NO FANTÁSTICO DA LYGIA FAGUNDES TELLES, UMA DAS MINHAS ESCRITORAS FAVORITAS. COMO ELE, HÁ DEZENAS AÍ PELA INTERNET...
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