AREIA
Não parece que a ampulheta
alargou o bocal, e a areia está passando mais depressa?
Não, é que estou envelhecendo.
Não que isso seja um problema. É
uma constatação. Tampouco triste ou assustadora. Realista.
Não porque tenho 43 anos, quase
44. É que nos últimos três anos, envelheci dez. Sem relação com a idade, porque
a maior parte da minha família nunca aparentou a idade que tem – sempre pareceu
mais jovem – e isso eu poderia ter herdado. A não ser minha mãe. Depois dos 40,
ela aparentava ter 40 mesmo, nunca mais jovem, e isso eu herdei dela, porque
dela também herdei outra coisa, o sofrimento.
Não há como ter a pele firme, as
linhas lisas, o olhar viçoso, o corpo em dia, o sorriso espontâneo quando se
passa pelos últimos três anos. A pandemia com um autista. Um autista
adolescendo. Tudo fora do eixo, tudo.
Não posso querer que seja de
outro jeito, pois é como é. Há caminhos inescapáveis, becos infindáveis, e só
de ter saúde (espero ter!), já preciso agradecer.
Não é todo dia, isso é verdade.
Há dias bons... um, dois... e logo vem o desespero. A angústia de quem não
consegue falar e se comunicar. Acumulando-se tudo, vivemos 68 anos já, nesses
quase treze anos de Alvi.
Não que meu filho seja o
problema. Ele é o amor maior, a força que me faz olhar para Deus e pedir mais
força, a mola propulsora da minha garra, o espelho de Jesus aqui, ao meu lado.
É nosso sofrimento que me açoita.
Não que seja só meu filho. Eu
tenho uma história antes dele, e, antes dele também, eu já havia vivido mais 60
anos. Ao todo, eu tenho 128 anos, e é por isso que a ampulheta alargou o bocal,
e a areia está passando mais depressa.
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